Faro, 20 de Novembro de 2015


Exmos Senhores,


O meu nome é Paulo Condado, Doutorado em Engenharia Electrónica e Computação pela Universidade do Algarve, e estou actualmente a terminar um Pós-Doutoramento no tópico de Computers and Accessibility (termino no final deste ano). A situação que se coloca é que tenho paralisia cerebral e, apesar de todo o trabalho que tenho desenvolvido e ter dado um contributo cabal para o avanço do estado da arte na minha área de investigação, encontro-me sem perspectivas de futuro no nosso país. Já há largos meses que envio CVs para os mais diversos locais e a resposta tarda em chegar. É triste ter de incomodar V. Excelências, cujo tempo é escasso, com o meu caso. O caso de um investigador que se orgulha de sempre ter estudado no país, tendo também durante o seu percurso académico visitado laboratórios de renome internacional no Massachussets Institute of Technology (MIT) e na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Escrevo esta carta a V. Excelências, pensando também em outras pessoas que no futuro podem estar na minha situação, para salientar que ainda existe um preconceito encapotado em Portugal que impede a integração plena das pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Evidentemente que os nossos legisladores criaram o Decreto-Lei n.º 29/2001 de 3 de Fevereiro, mas manifestamente não pensaram em pessoas com formação superior. Digo isto com base na premissa que raramente abrem concursos com três ou mais vagas para cargos a serem preenchidos por quem tem qualificações elevadas. Estarei errado? É claro que, teoricamente e se não existisse o tal «preconceito disfarçado», pessoas com essa formação não deveriam precisar recorrer a este Decreto-Lei e nesse sentido entendo o legislador. Porém é um facto que esse preconceito existe.

Pergunto a V. Excelências, na vossa qualidade de legisladores, o que devo eu fazer agora? Que alternativas me restam? Como irei sustentar a minha filha de uma forma digna? Sabem V. Excelências que eu, como qualquer outro bolseiro de investigação, não terei direito a qualquer subsídio de desemprego. A questão nem é essa, pois a precariedade dos investigadores é um facto, e eu não me pretendia «encostar» a um qualquer subsídio. A questão aqui é que sou uma pessoa válida, com conhecimentos para transmitir e muita coisa para fazer em benefício do nosso país, e — talvez por culpa do tal preconceito encapotado — corro o risco de ser colocado a um canto. Acham V. Excelências isso uma situação aceitável? Tanto para mais que sei que o Estado gastou muito para eu ter feito a minha formação.

Existe uma coisa inegável, imutável e que nenhum preconceito pode alterar jamais: Eu posso dar o meu modesto contributo para o progresso do nosso país. O que resta saber é se desejam que eu o dê ou não. Saibam V. Excelências que em 2009, altura em que terminei o meu Doutoramento, passei por uma situação semelhante (talvez menos grave pelo facto de não ter constituído família na altura) e o meu orientador, Professor Fernando Lobo, escreveu uma carta aberta sobre a minha situação (ver PDF) que teve amplas repercussões no mundo dos bloguers (ainda hoje uma pesquisa rápida no Google encontra transcrições dessa carta). Todos os meus trabalhos de investigação até essa altura encontram-se perfeitamente resumidos nessa carta.

Nos últimos anos, no âmbito dos meus trabalhos de Pós-Doutoramento, idealizei, entre outras coisas, um método de introdução de texto que permite a pessoas com problemas de coordenação nos membros superiores utilizarem pequenos dispositivos touchscreen (e.g. smartphones, tablets, entre outros). Esse teclado de ecrã, chamado EasyWrite, foi implementado, por um aluno de Mestrado que co-orientei e por mim próprio, e testado por um conjunto de pessoas com deficiência. Friso que este trabalho foi publicado na prestigiada revista científica Behavior & Information Technology (ver em http://dx.doi.org/10.1080/0144929X.2014.981584).

Também tenho estado a desenvolver um sistema que visa permitir a pessoas com deficiência interagirem com o ambiente físico que as rodeia através de um simples smartphone (e.g. acender/apagar a luz, ligar/desligar a máquina do café, controlar a temperatura da casa, etc). Basicamente, como pode constatar na apresentação que fiz na conferência ACM ASSETS 2015 (ver em https://youtu.be/JjJYrsSYbnM), uma das mais prestigiadas conferências internacionais na área de Computers and Accessibility, é um interface que permite a qualquer pessoa, independentemente de ter problemas de coordenação nos membros superiores ou não, controlar dispositivos domóticos. O artigo apresentado encontra-se disponível em http://dl.acm.org/citation.cfm?id=2809839 e durante este mês a ACM permite o download gratuito.

Hoje, na minha humilde condição de pai de família, venho rogar que V. Excelências se debrucem um pouco sobre o meu caso para que eu possa continuar a fazer aquilo que mais gosto: Usar os meus conhecimentos na área da informática em prol do desenvolvimento de Portugal. Peço isso para que todos os anos de esforço, superação de barreiras e amor pela ciência não tenham sido em vão.


Com os melhores cumprimentos,
Paulo Condado
http://www.paulocondado.net/